6 de julho de 2006

na tempestade navega-se. a contragosto, contrariando o corpo do navio. quando os céus escurecem e as ondas se levantam à nossa volta parece que a morte nos atingirá mil vezes; que nada sob os nossos pés voltará a ser seguro. e contudo, ao parar para escutar vemos que é quase tudo barulho e luz; que os deuses que se riem de escárnio são vozes na nossa cabeça. na tempestade julgamos temer a morte mas é da vida que fugimos. por cima das nossas cabeças restam pássaros, pequenos, molhados, mas de asas abertas por entre as nuvens escuras. olho os meus pés descalços e vejo que ainda estão sobre tábuas feitas de uma árvore que um dia foi terrestre e agora se tornou em coisa marinha. e descubro que estou vivo. vivo no meio da tempestade, do vento que sopra, da chuva que cai. vivo, sobre a música das águas.

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